Era começo da noite de uma sexta-feira de 1960, quando um ciclista entrou desesperado e sangrando no pronto-socorro do Cajuru dizendo ter sido atacado por um lobisomem ali mesmo nas proximidades. “O lobisomem saltou sobre mim, o que me fez perder o equilíbrio e tombar da bicicleta. Caí sobre um monte de capim, sentindo sobre meu corpo um monstruoso animal”, relatou o jornal Correio do Paraná no dia seguinte.
Eliseu Marconsin, o ciclista, teria afirmado que, num primeiro instante, julgou ser um cão. Porém, ao se deparar com um peso enorme sobre si “e uma carranca descomunal, teve de imediato a lembrança do tão falado lobisomem… travou-se uma luta titânica entre o homem e o monstro”, completou o periódico.
O ciclista morava na rua do Herval e, quando voltava para casa, foi atacado nas proximidades da fábrica Móveis Cimo, que ficava entre as avenidas Souza Naves e São José, na região entre o Cristo Rei e o Cajuru. Assim que conseguiu fugir, correu para o pronto-socorro do Cajuru com ferimentos graves por todo o corpo, especialmente no rosto.
Conforme relatos dos jornais da época, o ataque teria ocorrido entre as avenidas Souza Naves e São José, "nas proximidades da móveis Cimo". (Reprodução: Google Maps. Arte: Mairon Alves)
Após medicado, foi na delegacia de plantão denunciar o ataque. Ele relatou, desesperado, a aparência da fera, “era preto, peludo, um misto de urso e homem, ou talvez um lobisomem”, como relatou a edição 1527 do Diário do Paraná.
Algumas horas depois, uma dupla de policiais, segundo o Correio, também teria sido atacada e um deles estava em estado de choque, tendo se recusado a dar detalhes sobre o fato, “tomado de intensa crise nervosa”. Mas este segundo fato teria sido uma mentira plantada pelo motorista da radiopatrulha 20, escreveu o Diário do Paraná.
O jornal O Dia acrescentou: “interessante que, nesse meio tempo, ocorreu boatos entre a própria polícia que dois soldados da Polícia Militar haviam sido atacados pelo lobisomem e agonizavam”, e o mesmo informou que o comandante havia desmentido a situação.
VÍDEO ?? Lobisomem do Cajuru: podcast resgata lenda que assustou Curitiba
Veja o que os jornais da época falaram sobre o caso
A caçada mergulhou madrugada adentro
Imediatamente, a polícia armou um cerco para prender a fera. Cavalaria, guardas com cães e viaturas da cidade toda foram para o Cajuru em busca do peludo. Uma caçada que se estendeu madrugada adentro. “A confusão a essa altura era enorme: os moradores daquelas cercanias apavorados; o oficial de dia da Polícia Militar atendendo a vários telefonemas sobre os feridos e sobre as patrulhas que se teriam deslocado pra lá, a fim de caçar o perigoso delinquente ou louco furioso”.
“Logo depois era conduzido à delegacia de polícia um preto cabeludo com aspecto mefistofélico, que foi inquirido sobre suas andanças pela cidade. Depois de várias perguntas dos guardas civis, que levaram a coisa na farra, ele, para liberar-se, confirmou que era o tal lobisomem, pois era sexta-feira, dia em que tudo pode acontecer.” contou o Diário do Paraná. Porém, este fato não foi relatado por nenhum outro jornal da época e não houve maiores detalhes sobre o suspeito, nem a informação de que ele haveria sido preso.
“Prenderam alguns coitados que por lá dormiam. Até um miserável que de tanta sujeira, barbudo e cabeludo, no escuro poderia passar pelo orelhudo”, relembrou, 27 anos depois, o jornalista Rafles de Oliveira no jornal Correio de Notícias. Segundo ele, além da polícia, muitos populares foram à procura da fera. “Tinha gente que portava feixe de alhos, crucifixo e outros objetos para afugentar o lobisomem. Diz a tradição que funcionava”.
O lobisomem virou um fenômeno de mídia antes da internet
Jornal, telefone, boato, polícia, moradores, curiosos e até gente pegando táxi para conhecer o local. No dia seguinte, o Diário do Paraná trazia mais informações sobre o lobisomem de Curitiba. Ou o que as pessoas falavam dele. Dizia que não se falava em outra coisa pelas ruas da capital. “Creio que existe alguma coisa de verdadeira nesse noticiário todo. O lobisomem será possivelmente um indivíduo psicopata, dotado de dupla personalidade. Convenceu-se que é lobisomem e age como tal nos momentos que perde a lucidez”, disse o jornalista Fernando Pessoa em depoimento ao jornal.
O chofer Epaminondas Silvério relatou que já havia feito seis corridas até o Cajuru “só para levar gente que quer conhecer o local”. Dona Catarina Mirtz, do Tarumã, havia dito que um conhecido seu, soldado do Colégio Militar, viu o lobisomem quando montava guarda em uma guarita: “o coitado do rapaz saiu correndo e gritando que podiam prender e fazer o que quisessem que ele não voltaria a ocupar o posto. Ele não voltou mesmo”.
Apavorados e curiosos: curitibanos esgotaram jornal das bancas
A história deixou os curitibanos tão apavorados, e ao mesmo tempo curiosos, que os jornais relataram a grande venda de exemplares nos dias posteriores. Na edição especial de um ano do jornal Correio Paranaense, eles revisitam toda a história com fotos e relembram que tiveram que fazer uma edição extra sobre o caso que começou a ser vendida às 10h da manhã. “Às 11 horas começaram a tilintar nossos telefones com pedidos de maior número de exemplares, que desapareciam das bancas e dos jornaleiros. Toda a cidade tinha em mãos nossa edição extra, que somou uma tiragem de 16 mil exemplares”, contou o jornal.
O Diário do Paraná relatou que recebeu inúmeras ligações de pessoas que queriam entender o que estava acontecendo. Já o periódico O Dia teve o descaramento de publicar que se tratava de um lobisomem que usava sapato 44 bico chato. “Moderno, pois depois de exaustivas pesquisas conseguimos localizar um pedacinho desse tecido de que se faz chapéu tipo Nat King Cole”. A investigação teria sido encomendada a um detetive particular com escritório na rua Barão do Rio Branco.
Afinal, o que aconteceu na noite do ataque?
Foram à procura do ciclista, mas não o encontraram: “ele não mais estava presente, tendo ido pra casa descansar”. “Ficou apenas uma dúvida: Eliseu (o ciclista) inventou a história do monstro que o agrediu para justificar-se de alguma forma, perante alguém; ou, na verdade foi agredido (ou chocou-se com a bicicleta no escuro), com algum animal (vaca ou cachorro)?”, questionou o Diário.
O jornal O Dia arriscou alguns palpites: “As autoridades suspeitam que o lobisomem seria alguma pessoa fantasiada de urso, que tinha algum caso com o moço e resolveu vingar-se. Ou que o moço meteu-se em alguma briga (talvez mulher) e depois inventou a história do lobisomem. Por enquanto permanece em mistério o curioso fato”.
Mas fato mesmo é que ninguém soube explicar o que realmente aconteceu naquela noite do dia 8 de abril de 1960 com o ciclista que morava na Rua do Herval, 485. A única testemunha do ataque foi a própria vítima. Será que o caso de 1960 foi um episódio isolado?
Matar ou não o lobisomem?
O jornal Correio do Paraná publicou, em 1987, uma matéria relembrando o episódio. E ela traz diálogos entre o delegado e a vítima.
A matéria começa com a queixa do ciclista na antiga Delegacia de Plantão, na Rua Barão do Rio Branco: A matéria começa com a queixa do ciclista na antiga Delegacia de Plantão, na Rua Barão do Rio Branco:
— Como é que era o bicho?
— Preto, peludo, enorme, de olhos injetados de sangue...
O delegado pergunta onde o animal teria se escondido e a vítima responde que havia mais gente que teria visto. O delegado então decide partir para a caça.
Mas o mais saboroso é o diálogo sobre matar ou não o lobisomem:
“Porque ele também é uma pessoa transformada.”
Ou seja: o delegado se viu confrontado por um dilema ético, pois matar o monstro seria cometer um homicídio, por se tratar de um humano transformado, como prega o folclore brasileiro.
Seja mito do folclore urbano, trote ou caso de polícia, o caso do Lobisomem de Curitiba permanece como um daqueles episódios intrigantes e pitorescos da história de Curitiba — uma narrativa perfeita para ser relembrada em épocas como o Halloween e nas rodas de lendas locais.
?? Quer saber outras histórias curiosas sobre Curitiba e a Câmara Municipal? Então acesse a página do Nossa Memória.
Referências:
Correio do Paraná, edição 266 de 9 de abril de 1960.
https://memoria.bn.gov.br/docreader/DocReader.aspx?bib=171395&pagfis=20368
Edição 1527 do Diário do Paraná.
https://memoria.bn.gov.br/docreader/DocReader.aspx?bib=761672&id=2924708457194&pagfis=31818
Correio de Notícias 29 de junho de 1987
https://hemeroteca-pdf.bn.gov.br/325538/per325538_1987_01810.pdf?utm_source=chatgpt.com
O Dia - edição 11414
https://memoria.bn.gov.br/DocReader/DocReader.aspx?bib=092932&Pesq=lobisomem&id=1144804617077&pagfis=103865
Diário do Paraná - 9 de março de 1960 edição 1527
https://memoria.bn.gov.br/docreader/DocReader.aspx?bib=761672&pagfis=31818
Diário do Paraná - edição 1528
https://memoria.bn.gov.br/docreader/DocReader.aspx?bib=761672&pagfis=31833
https://memoria.bn.gov.br/docreader/DocReader.aspx?bib=761672&pagfis=31834
Jornal O Dia edição 11414
https://memoria.bn.gov.br/DocReader/docreader.aspx?bib=092932&pasta=ano%20196&pesq=lobisomem&pagfis=103865
O Dia - o lobisomem calçava 44
https://memoria.bn.gov.br/DocReader/docreader.aspx?bib=092932&pasta=ano%20196&pesq=lobisomem&pagfis=103877
Correio do Paraná – 9 de abril de 1960 capa
https://memoria.bn.gov.br/DocReader/docreader.aspx?bib=171395&pasta=ano%20196&pesq=&pagfis=19772
Correio do Paraná – 1º de junho 1960 fotos da caçada do lobisomem EDIÇÃO ESPECIAL
https://memoria.bn.gov.br/docreader/DocReader.aspx?bib=171395&pagfis=20368
Reprodução do texto autorizada mediante citação da Câmara Municipal de Curitiba
Cultura
Lobisomem à solta: a noite em que Curitiba entrou em pânico
Como a cidade inteira entrou numa espécie de histeria coletiva em torno de um suposto monstro no Cristo Rei na década de 1960. Por Michelle Stival Publicado em 27/10/2026 - 16:21 . Última modificação em 30/10/2026 - 10:16