20 ANOS — UMA HISTÓRIA DE HORROR?

Flávio Bolsonaro, as milícias, as alianças políticas e as perguntas que sua trajetória levanta sobre a segurança pública brasileira.

20 ANOS — UMA HISTÓRIA DE HORROR?
Flávio Bolsonaro, as milícias, as alianças políticas e as perguntas que sua trajetória levanta sobre a segurança pública brasileira.

<b>16 de outubro de 2026</b>

A eleição presidencial coloca diante dos brasileiros uma responsabilidade que vai muito além da escolha de um nome ou partido.

O próximo presidente terá influência decisiva sobre a política nacional de segurança pública, o combate ao crime organizado, as prioridades da Polícia Federal e a articulação entre União e estados.

Entre os candidatos está o senador Flávio Bolsonaro, cuja trajetória política merece ser examinada com atenção.

Não apenas pelas propostas que apresenta hoje, mas também pelos discursos que fez, pelas homenagens que concedeu e pelas alianças que construiu durante mais de duas décadas.

Esta reflexão não nasce da intenção de condenar alguém antecipadamente. Nasce de uma preocupação legítima: **o que podemos aprender sobre um candidato observando suas próprias escolhas políticas?**

## Uma história que começa em 2003

Em 24 de outubro de 2003, o então deputado estadual Flávio Bolsonaro apresentou uma moção de louvor ao tenente da Polícia Militar Adriano Magalhães da Nóbrega.

O documento oficial da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro registra elogios à atuação do policial e à sua contribuição para a segurança da sociedade.

Dois anos depois, Flávio foi autor do projeto que concedeu a Adriano a Medalha Tiradentes, uma das principais homenagens do Legislativo fluminense.

Adriano seria posteriormente apontado pelo Ministério Público como integrante de milícia e do chamado Escritório do Crime. Morreu em 2020, durante uma operação policial na Bahia.

Flávio afirma que as homenagens foram motivadas pelo histórico profissional do policial e não pelas acusações surgidas posteriormente.

Essa explicação precisa ser registrada. Mas também é legítimo investigar o contexto das homenagens, sobretudo porque a trajetória de Adriano se tornaria objeto de graves acusações criminais.

## O discurso sobre as milícias

Em 7 de fevereiro de 2007, Flávio Bolsonaro discursou na Assembleia Legislativa sobre a atuação das milícias nas comunidades do Rio de Janeiro.

Naquele período, esses grupos eram apresentados por alguns políticos como uma alternativa ao domínio territorial de traficantes.

Hoje, sabemos que milícias podem constituir organizações criminosas que exercem controle armado sobre territórios, extorquem moradores e exploram atividades econômicas.

O pronunciamento de Flávio reconhecia a existência de abusos, mas também apresentava argumentos favoráveis à atuação de grupos de policiais nas comunidades e criticava sua estigmatização.

Não se trata de uma declaração atribuída por adversários. O discurso está preservado nos registros oficiais da Alerj.

**Como aquele posicionamento se relaciona com a visão de segurança pública que Flávio defende atualmente?**

Essa pergunta ganha importância porque o candidato hoje promete combater as próprias milícias.

## O gabinete e os familiares de Adriano

A relação entre a trajetória parlamentar de Flávio e Adriano da Nóbrega não se limitou às homenagens.

A mãe e a esposa de Adriano trabalharam no gabinete do então deputado estadual.

Esses vínculos também apareceram nas investigações das chamadas rachadinhas.

Flávio sempre negou irregularidades. Provas utilizadas na investigação criminal foram posteriormente anuladas, e não se pode apresentar aquelas acusações como condenação judicial.

Entretanto, os vínculos funcionais e as homenagens são fatos distintos das acusações criminais e podem ser examinados historicamente.

## Marcelo Crivella e as alianças políticas

Em julho de 2020, Flávio participou de uma transmissão pública ao lado do então prefeito do Rio de Janeiro, Marcelo Crivella, elogiando sua administração.

Em dezembro daquele ano, Crivella foi preso preventivamente e afastado do cargo durante investigação sobre suposto esquema de corrupção na Prefeitura do Rio.

A prisão preventiva não representou condenação definitiva, e o caso deve ser acompanhado de seu desfecho processual e das manifestações da defesa.

A questão para este editorial não é atribuir a Flávio responsabilidade por eventuais crimes de Crivella.

É examinar o histórico de suas alianças e como ele reagiu aos acontecimentos que envolveram pessoas de seu círculo político.

## Cláudio Castro e o governo do Rio

Em fevereiro de 2026, Flávio Bolsonaro apresentou publicamente uma composição eleitoral no Rio de Janeiro que incluía Cláudio Castro para o Senado, Márcio Canella para outra vaga e Douglas Ruas para o governo estadual.

Posteriormente, Castro foi atingido por investigações da Polícia Federal e abandonou sua pré-candidatura ao Senado.

Em processo separado, a Justiça Eleitoral declarou sua inelegibilidade por irregularidades relacionadas às eleições de 2022.

São procedimentos diferentes, que não devem ser confundidos.

Ainda assim, o episódio levanta uma questão de responsabilidade política: **quais critérios orientaram a escolha e a manutenção dessas alianças?**

## Rodrigo Bacellar e as investigações

Rodrigo Bacellar, que presidiu a Assembleia Legislativa do Rio, também participou de articulações políticas no campo bolsonarista, embora sua relação com integrantes da família Bolsonaro tenha registrado aproximações e conflitos.

Bacellar foi preso e passou a responder a acusações relacionadas ao suposto vazamento de informações de uma operação policial envolvendo personagens investigados por vínculos com o Comando Vermelho.

Cabe à Justiça estabelecer sua responsabilidade individual.

Também cabe ao jornalismo examinar as relações institucionais e políticas que permitiram a esses personagens ocupar posições relevantes de poder.

## Márcio Canella: o episódio mais recente

A prisão de Márcio Canella, em 15 de outubro de 2026, trouxe novamente essas questões ao debate público.

Canella havia sido escolhido para disputar o Senado no palanque apoiado por Flávio Bolsonaro.

A ligação política era significativa: Rogéria Bolsonaro, mãe do candidato presidencial, havia sido anunciada como primeira suplente de Canella.

A Operação Unha e Carne investiga suspeitas de organização criminosa armada, corrupção e lavagem de dinheiro envolvendo uma rede de postos de combustíveis.

Segundo informações divulgadas pela Polícia Federal, o grupo investigado teria movimentado mais de R$ 7,6 bilhões em seis anos.

Esse valor se refere à movimentação identificada na investigação, não a dinheiro comprovadamente recebido por Canella ou Flávio.

Canella nega irregularidades, e sua responsabilidade deverá ser estabelecida judicialmente.

O que está comprovado, entretanto, é que ele integrou uma composição eleitoral publicamente apoiada por Flávio.

## O que Flávio Bolsonaro defende hoje?

O candidato apresenta um programa de segurança pública baseado no endurecimento de penas, na ampliação do sistema penitenciário, na redução da maioridade penal e no fortalecimento do combate às organizações criminosas.

Também promete enfrentar milícias, Comando Vermelho e Primeiro Comando da Capital.

Essas propostas precisam ser avaliadas por seus próprios méritos, limitações e consequências.

Mas existe uma pergunta que não desaparece diante de promessas de campanha:

**Como conciliar o discurso atual de enfrentamento às milícias com declarações e alianças políticas registradas ao longo de sua trajetória?**

Não há contradição automática em alguém modificar seu posicionamento ao longo de vinte anos.

O que se espera de um candidato à Presidência é que consiga explicar essa evolução de maneira clara, sobretudo quando o assunto envolve organizações criminosas e a segurança dos cidadãos.

## A responsabilidade de quem pretende governar

Nenhuma pessoa pode ser considerada culpada apenas porque conhece, homenageou ou apoiou alguém posteriormente acusado de um crime.

Esse princípio deve valer para todos os políticos, independentemente de partido ou ideologia.

Mas a ausência de responsabilidade criminal automática não elimina a possibilidade de responsabilidade política.

O eleitor pode legitimamente questionar a capacidade de avaliação, os critérios de escolha, a transparência e a coerência de qualquer candidato.

No caso de Flávio Bolsonaro, essas questões merecem atenção especial porque ele pretende exercer a Presidência da República e influenciar decisões nacionais de segurança pública.

Não basta anunciar rigor contra o crime organizado.

É necessário explicar como serão escolhidos os responsáveis por executar essa política, como serão evitadas interferências indevidas e quais mecanismos de controle e transparência serão adotados.

## O alerta que precisamos fazer

Ao longo de mais de duas décadas, encontramos episódios documentados envolvendo homenagens, discursos, relações funcionais e alianças políticas de Flávio Bolsonaro com personagens posteriormente investigados ou acusados de crimes.

Isso não prova que os episódios tenham uma origem criminosa comum, nem que Flávio tenha participado dos delitos atribuídos a terceiros.

Mas constitui um histórico que merece investigação jornalística, esclarecimentos públicos e escrutínio democrático.

O Brasil não precisa de condenações antecipadas. Também não precisa de silêncio diante de fatos relevantes.

**O direito de questionar a trajetória de quem pretende governar o país não é perseguição política. É parte da democracia.**

E, quando o assunto é segurança pública, esse direito se torna ainda mais importante.

Porque o combate ao crime organizado exige instituições fortes, independência das investigações, transparência e responsabilidade na escolha de quem exercerá o poder.

**Vinte anos de história não devem ser apagados por uma campanha eleitoral. Devem ser conhecidos, examinados e debatidos.**

Essa é a finalidade deste editorial.

**G1 SUL NOTÍCIAS — Editorial**

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