Supremo Tribunal Federal viveu nesta semana um episódio que promete marcar as relações internas da corte. O ministro Luiz Fux, ao apresentar um voto de mais de dez horas no julgamento da trama golpista, surpreendeu colegas e abriu uma fissura que, segundo avaliações nos bastidores, tende a deixá-lo isolado dentro do tribunal.

A decisão de Fux destoou não apenas da linha adotada pela maioria, mas também de seu próprio histórico de posicionamentos. Ao defender a nulidade do processo, alegar falta de competência do STF e absolver integralmente o ex-presidente Jair Bolsonaro, o ministro contrariou centenas de decisões anteriores da corte — incluindo votos que ele mesmo já havia proferido em outros julgamentos.

Entre ministros ouvidos reservadamente pela coluna de Bela Megale, a leitura é de que Fux perderá espaço político e capacidade de articulação. “Ele deve ficar até mais isolado que os indicados por Bolsonaro”, avaliou um integrante do Supremo, em referência a Kássio Nunes Marques e André Mendonça.

Desconforto explícito

Na Primeira Turma, onde o voto foi lido, o clima foi de desconforto explícito. Magistrados classificaram a manifestação como “confusa” e “contraditória”, com idas e vindas que chegaram a ultrapassar os argumentos das próprias defesas. Enquanto advogados reconheceram a tentativa de golpe, mas negaram a responsabilidade de seus clientes, Fux sequer admitiu que ela tenha ocorrido — embora tenha condenado Mauro Cid por tentativa de abolição do Estado Democrático de Direito.

A postura surpreendeu até os aliados de Bolsonaro. O cálculo dos defensores era que Fux divergisse do relator Alexandre de Moraes apenas na dosimetria das penas, reduzindo eventuais condenações. Em vez disso, o ministro optou por absolver o ex-presidente e afastar todas as acusações criminais, numa linha considerada mais favorável do que a esperada pelo próprio bolsonarismo.

Para interlocutores do Supremo, o impacto do voto é duplo: fragiliza a posição de Fux dentro da corte e, ao mesmo tempo, fortalece o discurso político de Bolsonaro, que insiste em apontar supostas ilegalidades no processo. O resultado é que, num julgamento destinado a reafirmar a autoridade do tribunal diante dos ataques de 8 de janeiro, o ministro acabou reforçando as narrativas da extrema direita.